História de Alagoas. 2

Os colonizadores. 4

Palmares – grito de liberdade. 6

Terra Prometida. 8

Calabar - herói ou traidor?. 10

Rumo à Independência. 11

A traição que deu certo. 12

Enfim, a independência. 13

O FOLCLORE ALAGOANO.. 14

FOLGUEDOS NATALINOS. 14

FOLGUEDOS RELIGIOSOS. 14

FOLGUEDOS CARNAVALESCOS. 14

FOLGUEDOS CARNAVALESCOS COM ESTRUTURA SIMPLES. 14

OS TORÉS. 15

BAIANAS. 15

BUMBA MEU BOI 15

CABOCLINHAS. 15

CAVALHADA.. 15

CHEGANÇA.. 15

COCO ALAGOANO.. 15

FANDANGO.. 15

GUERREIRO.. 16

PASTORIL. 16

REISADO.. 16

VAQUEJADA.. 16

O GOGÓ-DA-EMA.. 17


História de Alagoas

Vez por outra, aparece alguém confirmando que viu inscrições em pedras; descobriu ossos de animais pré-históricos e outros objetos que existiram na pré-história.

O historiador Jayme de Altavilla, em seu livro “História da Civilização de Alagoas”, refere-se a uma variedade de documentos arqueológicos, encontrados ao longo dos anos em várias regiões.

Em Santana do Ipanema, no vale do rio Caiçara, foram encontrados esqueletos de animais pré-históricos. Também surgiram vestígios desses animais em Viçosa e São Miguel dos Campos. Em Anadia, no sítio Taquara, descobriram um cemitério de índios, e ainda surgiram por aqui: monumentos mefalíticos, sambaquis (amontoados em cascas de ostras) e inscrições em pedras.

O historiador viçosense Alfredo Brandão, também é outro que fala em seus livros sobre a pré-história em Alagoas. Afirma que na propriedade Pedras de Fogo (da família Loureiro), encontra-se uma pedra com diversas cruzes gravadas, sendo uma delas tão bem gravadas que passa por milagrosa. Também fala em inscrições descobertas em pedras nos municípios de Capela, Atalaia, Porto de Pedras e Anadia. Sua coleção de instrumentos de pedras, como tambetá, machadinha e outros, está exposta no Instituto Histórico Geográfico de Maceió.

Nas margens do rio São Francisco, já descobriram muitas ossadas de animais pré-históricos. É uma região, comprovadamente habitada naquela época. Um museu instalado no Xingo Parque Hotel, expõe muitos objetos arqueológicos descobertos por toda aquela imensidão de terras.

Quando o Brasil foi descoberto, a terra que hoje pertence ao Estado de Alagoas, era um mundo de mata virgem, onde viviam índios nativos

Por: Jair Barbosa

Quando o Brasil foi descoberto, a terra que hoje pertence ao Estado de Alagoas, era um mundo de mata virgem, onde viviam índios nativos. Rios perenes, muito peixe, frutas, animais soltos. Enfim, a flora e a fauna exuberantes, que enchiam os olhos dos portugueses que foram chegando para iniciar o processo de colonização.

A grande quantidade de lagoas em seu litoral, fez com que os colonizadores batizassem logo a região de Alagoas. Elas continuam embelezando a paisagem típica do Estado, se constituindo em pontos de atração turística e ainda em sustento de milhares de alagoanos, que tiram dela, o peixe e o sururu, molusco típico, consumido não só pelos pobres, mas presente na mesa dos ricos, da classe média e dos bares e restaurantes.

Esse pedaço de terra brasileiro, entre o Litoral e o Sertão, pertencia a Capitania de Pernambuco, comandada pelo donatário Duarte Coelho, que em visita ao Sul da Capitania, deparou-se com o rio São Francisco. Lá, edificou um forte e deu origem a cidade de Penedo, comprovadamente o primeiro núcleo habitacional de Alagoas. Hoje, é uma cidade das mais importantes do Estado. Durante várias décadas, foi a mais progressista do interior. Perdeu para Arapiraca na segunda metade deste século. Mas continua imponente, com seu casario colonial, seu povo culto, seu potencial turístico e sua economia que cresce a cada dia. Imaginemos Alagoas nos tempos do descobrimento do Brasil! Da foz do São Francisco a Maragogi: índios nativos como os Caetés e os Potiguaras. Nus, livres, vivendo da caça e da pesca, falando língua própria, usufruindo dessa beleza natural, com rios e lagoas sem poluição. Um povo festeiro, cultuando suas tradições. Era feliz e livre da presença do branco português, que aqui chegou para marginalizá-la, exigir que aprendesse sua língua, sua religião e seus costumes. Todos perderam a identidade e se tornaram escravos da ganância dos colonizadores, que só queriam extrair a riqueza da terra e enviar para Portugal.

Nossos índios eram vaidosos, festeiros e valentes. Adoravam se pintar com várias cores, dançar, e achavam o nariz chato um importante requisito de beleza. No Sul eram os Caetés e suas sub-tribos, como a dos Caambembes, instalada em Viçosa. No Norte, os Potiguaras. As demais tribos, eram:

- Abacatiaras, que viviam nas ilhas do rio São Francisco.
- Umans, no alto Sertão, as margens do rio Moxotó.
- Chucurus, em Palmeira dos índios.
- Aconans, Cariris, Coropotós e Carijós, as margens do São Francisco,
- Vouvés e Pipianos, no extremo ocidental de Alagoas.

Esses nativos alagoanos eram bronzeados do sol escaldante, moravam em cabanas de palha, reunidas em forma de aldeias e viviam da caça e da pesca. Promoviam festas, utilizando-se de instrumentos musicais como corneta, flauta e maracá. Em combate, atiravam sobre o inimigo, flechas envenenadas e sobre as aldeias, flechas com algodão inflamado, para incendiá-Ias.

As índias alagoanas trabalhavam muito. Fiavam algodão para confeccionar cordas e redes e ainda fabricavam vasos de barro para uso doméstico. O adultério era considerado crime. Nas aldeias, todos se reuniam em forma de República. O chefe maior era o Cacique, escolhido entre os mais velhos e respeitados. O Pajé era o conselheiro espiritual. Nas grandes crises, eles se reuniam em conselhos, denominados Carbés.

Hoje, Alagoas tem aproximadamente 700 índios, distribuídos nas tribos:

- Chucurus, em Palmeira dos índios, muito bem organizada, já toda civilizada, com escola, posto de saúde, posto telefônico e outros benefícios.
- Cariris, em Porto Real do Colégio, também com toda a infraestrutura econômica e social, funcionando.
- Tngui-Botós. em Feira Grande.
- Wassus
, em Joaquim Gomes, e uma outra descoberta recentemente, ainda em estudo na Funai – Fundação Nacional do índio, para constatar sua verdadeira identidade. É um pequeno grupo que vive no alto Sertão alagoano.

Assim era Alagoas na época do descobrimento do Brasil. Esse pedaço de Brasil, abençoado pela natureza, livre, com a Mata Atlântica exuberante, o

Os colonizadores

Duarte Coelho, segundo os historiadores, era dotado de muita capacidade administrativa e devotado a causa do governo português

Por: Jair Barbosa

A primeira expedição ao Sul da Capitania de Pernambuco, foi conduzida pelo próprio donatário, Duarte Coelho, que saiu do Recife beirando o litoral até chegar a foz do rio São Francisco. De lá, rio acima, deparou-se com um local privilegiado pela natureza, com o rio cheio de pedras. Edificou um forte e deu origem a povoação de Penedo.

Duarte Coelho, segundo os historiadores, era dotado de muita capacidade administrativa e devotado a causa do governo português. Suas cartas ao Rei Dom João BI, eram verdadeiros relatos sobre a riqueza da capitania, suas paisagens e os fndios. Fundou Olinda, fez aliança com os índios e iniciou o plantio da cana-de açúcar, dando origem aos primeiros engenhos, que durante quatro séculos dominaram a economia pernambucana e alagoana, sendo substituídos peias usinas.

Mas toda essa extensão de terras, entre o Litoral e o Sertão pre-cisava ser colonizada. Aí surge a figura de um alemão Cristhovan Lintz, depois aportuguesado para Cristovão Lins. Ele vivia em Portugal, onde casou-se com Adriana de Hollanda, filha do holandês Amault de Hollanda e da portuguesa Brites Mendes de Vasconcellos Hollanda. O casal de-sembarcou no Recife, na primeira metade do século do descobrimento (XVI) e ganhou uma imensa sesmaria, compreendendo o Cabo de Santo Agostinho até o vale do rio Manguaba. Fixou-se exatamente as margens desse rio, onde fundou a povoação de Porto Calvo e os três primeiros engenhos: Bscurial, Maranhão e Buenos Aires.

O segundo colonizador foi o português Antonio de Barros Pimentel, casado com Maria de Hollanda Barros Pimentel, irmã da mulher de Cristovão Lins. Ele chegou ao porto da Barra Grande (Maragogi), ainda com a roupa que usava na Corte, em Lisboa. Era um nobre, descendente de uma das mais importantes famílias de Portugal, originária da cidade de Viana, mas com os seus ancestrais surgidos na Espanha. Ganhou uma sesmaria que compreendia as terras entre os rios Manguaba, pas-sando pelo Camaragibe e chegando ao rio Santo Antonio, em São Luiz do Quitunde. Construiu engenhos de açúcar e criou gado.

A sesmaria que compreendia as margens das lagoas Mundaú e Manguaba, pertencia ao português Diogo Soares, enquanto em São Miguel dos Campos, o dono das terras era de Antônio de Moura Castro e as de Penedo, de Dom Felipe de Moura. Outras sesmarias de menor porte, foram surgindo em vários pontos de Alagoas.

Costumes e Tradições

O dia-a-dia nos engenhos alagoanos dos séculos XVII, XVIII e XIX, pouco diferenciavam do das usinas de hoje

Por: Jair Barbosa

Obviamente que a paisagem mudou. Não existe mais escravos e sim trabalhadores, mas que continuam servis aos patrões. A maioria sem qualquer vínculo empregatício, ganhando pelo que produz. Os escravos eram negros, enquanto os trabalhadores atuais são mestiços, brancos ou negros. Os costumes e tradições mudaram muito.

Não existem senzalas, mas casas populares, em algumas usinas. A maioria preferiu deixar os trabalhadores morando nas cidades próximas e garantir o transporte para a usina ou o canavial. A casa grande ainda existe. Mas geralmente o usineiro vive na capital em confortáveis mansões ou apartamentos luxuosos no Farol ou dos bairros da orla marítima.

As sinhazinhas (filhas dos senhores de engenho) eram preparadas para casar logo que chegassem a adolescência. Estudavam as primeiras letras com professores particulares na própria casa grande, estudavam ainda o latim e o francês, aprendiam a bordar e cozinhar e liam poesias. Eram românticas, mas dificilmente casavam por amor, sendo obrigadas a casar com primos legítimos e até tios. Tudo para preservar o patrimônio da família.

As patricinhas (filhas de usineiros) são meninas livres, que vivem a doce vida de filhas de milionários, viajando para o exterior, estudando nos melhores colégios da cidade ou mesmo fora do país; usam roupas de grifes famosas e não mais são obrigadas a casar com quem o pai quer, embora que dificilmente procurem algum rapaz pobre. Algumas chegam a engajar-se no trabalho logo que terminam a universidade, seja como administradoras de empresas ou assistentes sociais, na usina da família.

Hoje, as senhoras dos usineiros procuram trabalhar também na própria usina, ajudando o marido em atividades sociais, como a assistência às famílias dos trabalhadores. Já não são mais aquelas matronas, que se enfurnavam na casa grande, só cuidando das atividades domésticas e gerando filhos. Algumas optam pela vida produtiva na capital, atuando em atividades do comércio, como butiques de marcas sofisticadas. Mas, são produtivas, atualizadas, viajadas e não mais esbanjam riquezas.

Nos engenhos, as festas eram restritas a casa grande. Os escravos ficavam nas senzalas cultuando suas tradições africanas. Mas eram proibidos de, pelo menos, observar os festejos realizados pelos patrões, que comemoravam as festas do santo padroeiro, as de São João e São Pedro; o Natal e o Ano Novo, além de casamentos, aniversários, batizados e outras cerimônias. A capela era o centro de todas as atenções.

Nas usinas desse final de século, realizam-se festas promovidas pelos trabalhadores, geralmente em clubes sociais administrados por eles próprios. Ao invés do autêntico folclore típico da zona canavieira, dançam e cantam o axé-music. As moças usam mini-saia ou calça coladas ao corpo. Pouco se diferenciam das filhas do patrão. Vez por outra, aparece alguma dessas filhas do proletariado, usando uma calça jeans de marca famosa, comprada a prestação numa boutique da capital.

Ao invés do barracão (armazém de venda de alimentos) dos antigos engenhos, os trabalhadores das usinas compram em supermercados ou mercadinhos das cidades próximas ou mesmo na feira-livre. Recebem seus salários no último dia útil da semana e logo providenciam o abastecimento da cozinha.

Em algumas usinas, cujos proprietários são mais conscientes da realidade econômica e social, prioriza a assistência ao trabalhador, funcionam escolas e creches para as crianças, além de assistência médica e odontológica. Nos engenhos banguês, crianças filhas de escravos ou trabalhadores brancos, não freqüentavam escolas, que eram para os filhos dos patrões.

Nas usinas globalizadas e competitivas, existem bons exemplos de como conduzir uma empresa moderna, pensando no social. A Caeté, do Grupo Carlos Lyra; Coruripe, do Grupo Tércio Wanderley; Leão (Rio Largo), do Grupo Leão; Santo Antônio (São Luiz do Quitunde, do Grupo Correia Maranhão; Porto Rico (Campo Alegre), do Grupo Olival Tenório, entre outras. Os trabalhadores e suas famílias são muito bem assistidos. Existem creches, escolhas, clubes sociais, postos de saúde e outras benfeitorias.

Palmares – grito de liberdade

A própria cidade de União dos Palmares, hoje, já lembra seu passado histórico. Em vários pontos vê-se o nome de Zumbi e do Quilombo dos Palmares

Por: Jair Barbosa

Os negros africanos, que chegavam aos montes aos engenhos de Alagoas, logo que foi autorizado o tráfego negreiro, viviam como escravos, sendo maltratados e trabalhando para enriquecer o patrão branco. Obviamente que eram revoltados e procuravam a todo custo conquistar a liberdade.

Era preciso que surgisse um líder da raça, que incentivasse os demais a lutar pela tão sonhada liberdade. E, assim entra em cena Ganga Zumba, que levou um grupo de negros para um local distante dos canaviais, no alto da Serra da Barriga, no atual município de União dos Palmares. Os engenhos localizavam-se nos vales dos rios Manguaba, Camaragibe e Santo Antônio. A notícia foi se espalhando e a cada dia, chegavam mais negros fugitivos.

Logo batizaram o local de Quilombo dos Palmares. Terra fértil, boa para o plantio de qualquer tipo de lavoura, logo foi se tornando um importante centro produtor. Os negros construíram uma verdadeira civilização, assim como era na África. Ganga Zumba se constituía no Chefe de Governo e tinha seus Ministros. Formou-se então uma verdadeira República. Um avanço na época, comparando-se a submissão do Brasil à Portugal. Lá, eles viviam livres, falavam seu próprio idioma, não eram maltratados pelos brancos e podiam cultuar suas tradições religiosas e festivas.

Vez por outra, os portugueses, brasileiros e até holandeses tentavam acabar com esse refúgio dos negros. Não conseguiam. A população negra era mais numerosa e organizada. O tempo foi passando e Ganga Zumba já não conseguia ter forças para liderar a comunidade. Na tradição africana, a hereditariedade era passada de tio para sobrinho. E, assim, ele escolheu um desses sobrinhos: Zumbi, um jovem negro, forte, educado por um padre de Porto Calvo, que logo afeiçoou-se a causa da liberdade, integrou-se ao Quilombo e tornou-se o maior líder revolucionário da História do Brasil, finalmente reconhecido depois de 300 anos de sua morte, por decreto assinado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 20 de novembro de 1995, exatamente quando o país reverenciava os 300 anos de sua morte.

Zumbi era um líder nato. Organizado, logo pôs ordem no Quilombo, nomeando seus assessores e distribuindo tarefas para toda a população, que era preparada para a batalha. Quando esse dia chegava, ninguém dormia. O quilombo fervia. Era homens, mulheres e crianças de prontidão para o ataque. Foram vários.

Por quase um século o Quilombo dos Palmares resistiu. Mas, em novembro de 1895, os brancos conseguiram subir a Serra da Barriga. Era um grupo numeroso e fortemente armado, liderado por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira. O sangue jorrou. Milhares de negros foram barbaramente assassinados. Zumbi conseguiu fugir acompanhado de mais três companheiros. Lutou até o fim, quando viu tudo que construiu ser destruído e seus irmãos de cor, sendo mortos.

Existem duas versões sobre a morte de Zumbi. A primeira é a de que ele suicidou-se, pulando de um precipício na Serra da Barriga. Mas os historiadores da época afirmam que ele foi assassinado mesmo, depois de alguns dias da destruição total do Quilombo. Sua cabeça foi cortada e levada ao Recife, para ser exposta ao público como um troféu. Era o dia 20 de novembro de 1695. E depois de três séculos, essa data vendo sendo lembrada como o Dia Nacional da Consciência Negra. A cada ano, centenas de negros e brancos sobem à Serra da Barriga nesse dia, para reverenciar Zumbi e sua raça.

O local é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Mas precisa melhorar sua infra-estrutura. Faltam recursos financeiros. O projeto para construção do Memorial Zumbi, já existe. Mas continua engavetado. Seria a construção de um espaço cultural no alto da serra, com museu, biblioteca e teatro. A luta dos movimentos negros continua. Já apresentaram vários avanços. A própria cidade de União dos Palmares, hoje já lembra seu passado histórico. Em vários pontos vê-se o nome de Zumbi e do Quilombo dos Palmares. Em Maceió, existem as praças Ganga Zumba e do Quilombo dos Palmares, além de uma escola municipal. O aeroporto também lembra esse episódio que se constituiu no primeiro grito de liberdade do Brasil.

Terra Prometida

A fertilidade da terra que depois transformou-se em Capitania, Província e Estado de Alagoas, atraía muita gente

Por: Jair Barbosa

A fertilidade da terra que depois transformou-se em Capitania, Província e Estado de Alagoas, atraía muita gente. E, com o avanço da invasão de outros povos europeus ao Brasil, logo esse pedaço da então Capitania de Pernambuco ficou muito visitado.

Primeiro foram os franceses, que chegaram para explorar o pau-brasil. Não passaram muito tempo, mas deixaram uma marca: a construção do primeiro porto, que ficou conhecido como Porto dos Franceses, aproveitado depois como único porto da região, para o transporte do açúcar em demanda a Portugal. E foram quase três séculos com esse local contribuindo decisivamente com o progresso de Alagoas, até o surgimento do porto de Jaraguá. Hoje, ainda existe um resquício daquela época: a carcaça de um navio francês, que, quando a maré está baixa, fica bem visível. E esse curto período vivido pelos invasores, imortalizou-se na História e está com o nome na “boca do povo”. É a praia do Francês, a mais badalada do litoral alagoano, conhecida no país e no mundo, como uma das mais bonitas do Brasil. Pertence ao município de Marechal Deodoro, distante poucos quilômetros da capital.

Mas, a fase mais duradoura dessas invasões foi mesmo a dos holandeses, que transformaram a Capitania de Pernambuco no Brasil Holandês e muito contribuíram para o seu desenvolvimento, embora Alagoas não tenha experimentado essa fase de apogeu, que se restringiam mais ao Recife e Olinda. Por aqui, foi mais destruição, como ocorreu com a Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul (atual Marechal Deodoro), completamente incendiada pelos holandeses, que ainda tentaram fazer o mesmo em Santa Luzia do Norte, não conseguindo, devido a ação rápida de seus moradores, liderados por dona Maria de Souza. Em Penedo, construíram um forte, depois destruído pelos brasileiros e portugueses que não queriam qualquer lembrança dessa fase.

Um outro episódio que marcou a presença dos holandeses em Alagoas, foi a Batalha da Mata Redonda, uma alusão ao local (hoje pertencente ao município de Porto de Pedras) onde ocorreu a mais sangrenta batalha entre holandeses, portugueses e brasileiros, vencida pelos primeiros, por ter um maior arsenal e maior contingente de homens.

Mas os holandeses liderados por Maurício de Nassau, muito fizeram por Pernambuco. A cultura, a educação, o avanço na agricultura e na pecuária. Enfim, uma civilização que eles queriam formar e transformar numa colônia desenvolvida. Construíram pontes (ainda existentes), teatros e outras grandes obras no Recife, cidade que ainda hoje lembra esse período de desenvolvimento cultural e econômico.

Os holandeses eram protestantes (evangélicos), mas não impunham essa religião aos brasileiros que eles já dominavam. Assim a religião católica continuou sendo forte na Capitania. Preocupavam-se com a educação, implantando métodos avançados de alfabetização para crianças e adultos.

Maurício de Nassau foi inegavelmente o maior administrador que o Brasil já teve. Era organizado, trabalhador e extremamente ético, qualidades que os demais donatários portugueses não possuíam, optando mesmo pela exploração, a escravidão dos negros e índios e o aumento da produção de açúcar para enviar a Portugal.

Calabar - herói ou traidor?

Começa então a história desse bravo alagoano, que alguns historiadores afirmam ter sido traidor e que ele próprio nunca se considerou assim

Por: Jair Barbosa

Chamava-se Domingos Fernandes Calabar, um mulato, filho de dona Ângela Álvares, nascido na Vila de Porto Calvo. Estudado, rico e com espírito de liderança, avançou no seu tempo. Mesmo assim, ainda era discriminado pelos brancos portugueses e brasileiros, por sua condição de mestiço e filho bastardo. Possuía engenhos de açúcar, muito dinheiro, estudou em Olinda, era culto e muito bem informado.

Quando da Invasão Holandesa a Porto Calvo, lutou ao lado de seus conterrâneos contra esses invasores. Mas logo foi percebendo que eles tinham um projeto de colonização muito mais avançado e ético do que o dos portugueses. Não contou conversa: passou para o lado dos holandeses.

Começa então a história desse bravo alagoano, que alguns historiadores afirmam ter sido traidor e que ele próprio nunca se considerou assim. Deixou uma carta-testamento, mostrando sua decisão. Nela, alegava que não se considerava traidor, porque o Brasil não era uma pátria. E que o projeto dos holandeses era muito melhor para os brasileiros. Mas não foi compreendido, obviamente.

Calabar viveu as experiências mais desastrosas daquelas épocas. Acompanhava os holandeses em suas batalhas, destruindo engenhos e fazendas. Sabia que tudo aquilo que acontecia era porque seus conterrâneos não aceitavam a proposta de colonização dos invasores, optando mesmo pelos portugueses, já que eram descendentes destes.

Por conhecer Recife e seu avançado projeto de desenvolvimento econômico-cultural, queria que tudo aquilo fosse implantado em Porto Calvo e Penedo. Não conseguiu. Seus conterrâneos venceram. Mas ele deixou bem patente em sua carta, que preferia derramar seu sangue por uma causa justa, que ele abraçou do que viver sob o domínio mesquinho dos portugueses, que só queriam mesmo explorar os brasileiros. Foi morto e esquartejado, com partes do seu corpo distribuídas pelas ruas da Vila de Porto Calvo. Mas, os holandeses conseguiram recuperar tudo e fizeram um enterro com honras militares. Passou para a História da Holanda, como herói. A História do Brasil, o considera um traidor. Mas era escrita pelos portugueses.

Hoje, Porto Calvo só tem como monumentos para lembrar a sua importância na História de Alagoas, a Igreja matriz de Nossa Senhora da Apresentação, inaugurada em 1610 (existe no alto de sua fachada, essa data), com seu altar-mor em madeira, originalíssimo e as imagens da sua padroeira, de Cristo crucificado, de Nossa Senhora da Conceição e outras. É a mais antiga da freguesia de Alagoas. Para lembrar Calabar, existem: o chamado Alto da Forca, onde dizem que ele foi enforcado, além de um clube, um bar e restaurante que levam o seu nome. Mas, o importante mesmo é a luta dos filhos da terra para resgatar a memória desse conterrâneo. São publicados livros e outros periódicos, enaltecendo a sua figura. A esperança é de que um dia, ele seja finalmente considero Herói Nacional, como foi Zumbi, outro que os portugueses também consideravam como traidor.

Rumo à Independência

No início da segunda década do século XVIII, foi criada a Comarca de Alagoas

Por: Jair Barbosa

O progresso do Sul da Capitania de Pernambuco conhecida como Alagoas fez com que sua população fosse logo desejando a independência. Mas nada era fácil. No início da segunda década do século XVIII, foi criada a Comarca de Alagoas, sob a jurisdição da Capitania de Pernambuco, e nomeado o primeiro Ouvidor Geral: José da Cunha Soares.

Por não existir cursos jurídicos no Brasil, esse cargo era destinado a quem fosse mais letrado, com espírito de liderança. Transformava-se em comandante da Justiça, da Política e da Economia. E no período de mais de um século, entre 1711 a 1817 (ano de sua emancipação política), Alagoas teve 17 ouvidores-gerais.

Foi exatamente na segunda metade do século XVIII que surge Maceió, de um engenho de açúcar denominado Massayó. Surgiram ainda as povoações de Anadia, Atalaia, Camaragibe, São Miguel dos Campos e Porto de Pedras. A Comarca tinha como sede a vila de Alagoas, atual Marechal Deodoro, uma espécie de capital, já com suas igrejas monumentais, ainda hoje preservadas. Penedo, Porto Calvo e Santa Luzia do Norte, eram vilas, que continuavam crescendo e atraindo novos moradores.

Ainda no século XIX existiam em Alagoas as vilas de Atalaia, Anadia, Água Branca, Pão de Açúcar, Traipu, Piranhas, Palmeira dos Índios, São Miguel dos Campos, Quebrangulo, Assembléia (Viçosa), Imperatriz (União dos Palmares), São José da Laje, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe.

A traição que deu certo

O Ouvidor Batalha sempre sonhava em transformar Alagoas em Capitania e ser o primeiro governador

Por: Jair Barbosa

A Comarca de Alagoas já esbanjava progresso, provocando ciumeira em meio as lideranças da Capitania de Pernambuco. Nas duas primeiras décadas do século XIX, já apresentava-se em condições de se tornar independente. Mas os donatários não aceitavam. Afinal, era daqui que eles abocanhavam uma boa parcela da arrecadação de impostos, além da grande produção de açúcar dos nossos engenhos.

O Ouvidor Batalha sempre sonhava em transformar Alagoas em Capitania e ser o primeiro governador. Aproveitou a Revolução Pernambucana, que tinha como objetivo libertar-se de Portugal e, iniciou seu plano. Os revolucionários já haviam conquistado o apoio da Paraíba e Rio Grande do Norte. Faltava Alagoas e Sergipe (Comarcas), além da Bahia e Ceará.

Um emissário foi enviado do Recife a Salvador, para tentar conquistar esse tão sonhado apoio. Passando por Alagoas, propagava os ideais revolucionários e conquistava alguns adeptos. Mas o Ouvidor Batalha não se encontrava na sede da Comarca e sim na vila de Atalaia, já em campanha em prol da emancipação política de Alagoas.

O emissário que trouxe a notícia para Alagoas e seguiu para Sergipe e Bahia, foi o Padre Roma. Aqui, encontrou um apoio de peso: o Comandante das Armas, Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca, que atendendo ao pedido do Padre Roma, autorizou a destruição dos símbolos de Portugal e colocou em liberdade todos os presos. Passou por cima da autoridade maior da Comarca: o Ouvidor Batalha. Escreveu ao Conde D’Arcos, governador da Bahia, informando sobre os idéias da Revolução Pernambucana e seu apoio, pedindo o dele. Não conseguiu. Arrependeu-se de ter seguido os conselhos do Padre Roma. Era tarde demais.

Em Atalaia, o Ouvidor Batalha, aproveitando os tumultos, escreve ao Conde D’Arcos comunicando-lhe das medidas que resolveu tomar: desmembrou a Comarca de Alagoas da jurisdição da Capitania de Pernambuco, enquanto durasse a revolução e auto-nomeou-se governador provisório. Contou com o apoio que precisava e venceu a batalha. Dias depois, Alagoas separou-se definitivamente de Pernambuco. Mas ele não conseguiu o que tanto sonhava: ser seu primeiro governador.

Enfim, a independência

Ao desembarcar no porto de Jaraguá, o governador encantou-se com a vila de Maceió

Por: Jair Barbosa

O decreto assinado por Dom João VI emancipando Alagoas de Pernambuco, transformando a Comarca em Capitania, estabeleceu como capital a vila de Alagoas (atual Marechal Deodoro) e nomeando como primeiro governador, o português Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, que acabara de governar a capitania do Rio Grande do Norte.

Ao desembarcar no porto de Jaraguá, o governador encantou-se com a vila de Maceió. Foi recebido com muitas festas e, hospedou-se no sobrado de um português na esquina das ruas do Comércio e Livramento, onde hoje funciona a Ótica Flamengo.

Sua posse aconteceu na matriz de Nossa Senhora da Conceição, na capital, numa solenidade com muita pompa, autoridades diversas e muitos discursos. Mas o governador não gostou muito do aspecto urbano da antiga vila, sempre priorizando Maceió.

E essa opção pela vila ao invés da capital, fez com que várias autoridades protestassem. Os de Alagoas (Marechal Deodoro) não aceitando sob hipótese alguma a instalação de repartições públicas na vila de Maceió, enquanto o próprio governador e várias outras personalidades políticas, econômicas e culturais preferiam mesmo que os principais órgãos públicos fossem mesmo instalados em Maceió, por ser mais desenvolvida que a capital, possuir um movimentado porto e toda a infra-estrutura de uma capital. E assim foi feito.

Melo e Póvoas instalou a Junta de Administração e Arrecadação da Real Fazenda. Quartel Militar e a Alfândega. Ciumeira geral.

Maceió crescia a olhos vistos. O governador mandou que fosse elaborada uma planta urbana, para proporcionar um novo visual a vila. O traçado das ruas e das praças e os melhoramentos necessários. E assim surgiram as ruas do Comércio, do Sol, Livramento, Boa Vista, Moreira Lima, Augusta, Nova, Alegria e as praças Dom Pedro II e Martírios. O traçado continua o mesmo. Nunca houve alargamento, mudando apenas a arquitetura das casas.

O governador afastou-se do cargo em fevereiro de 1822, retornando à Portugal. Criou-se uma junta governativa formada por Antonio José Ferreira, José de Souza Melo, Nicolau Paes Sarmento, Manoel Duarte e Antonio de Hollanda Cavalcante, que permaneceu até a independência do Brasil, quando a Capitania foi transformada em Província.

 

 

O FOLCLORE ALAGOANO

Alagoas é entre todos os Estados brasileiros o que possui o maior número de folguedos populares. São registrados pelos estudiosos do assunto cerca de vinte e nove folguedos e danças alagoanas, a saber: quatorze natalinos, dois de festas religiosas, quatro carnavalescos, quatro carnavalescos com estruturas simples, dois torés e três danças.

Para termos uma melhor compreensão apresentamos uma classificação dessas manifestações.

FOLGUEDOS NATALINOS

Baianas
Bumba meu Boi
Cavalhada
Chegança
Fandango
Guerreiro
Maracatu
Marujada
Pastoril
Pastoril Profano
Presépio
Reisado
Quilombo
Taieiras

FOLGUEDOS RELIGIOSOS

Mané do Rosário
Bandos

FOLGUEDOS CARNAVALESCOS

Cambindas
Negras da Costa
Samba de Matuto
Caboclinhas

FOLGUEDOS CARNAVALESCOS COM ESTRUTURA SIMPLES

Boi de Carnaval
Ursos de Carnaval
Gigantões (bonecas)
A Cobra Jararaca

OS TORÉS

Toré do Índio
Toré de Xangô
Rodas de Adultos.

BAIANAS

Este folguedo não possui um enredo determinado. As baianas cantam uma seqüência constituída de marchas de entrada ou abrição de sede, peças variadas e por fim a despedida. Personagens: grupo de dançadores. Trajes: vestes convencionais de baianas. Instrumentos: percussão.

BUMBA MEU BOI

Auto popular de temática pastoril que tem na figura do boi o personagem principal. Sua apresentação em Alagoas é semelhante a um teatro de revista. Consta de desfile de bichos que dançam ao som de cantigas entoadas por cantadores e acompanhadas por conjunto musical. Instrumentos: percussão e apito.

CABOCLINHAS

Dança cortejo, sem enredo ou drama. Forma de reisado, no qual os personagens se vestem de penas. Originário dos maracatus pernambucanos com elementos do reisado alagoano, a exemplo das baianas e samba de matuto. Personagens: mestre, contramestre, embaixadores, vassalos, mateus, rei, lira, general, borboleta, estrela de ouro, rei Catulé e caboclinha. Trajes: cocar, tanga, braceletes e perneiras de penas de peru, colares, brincos de dente, conchas ou sementes. Instrumentos: banda de pífanos.

CAVALHADA

Cortejo e torneio a cavalo, em que a parte mais importante consiste na retirada de uma argolinha, com a ponta da lança, em plena corrida. Os doze cavaleiros ou pares são divididos em cordões azul e encarmado. Tem origem nos torneios medievais.

CHEGANÇA

Auto marítimo existente em Alagoas é a versão das Mouriscadas da Península Ibérica e das danças Mouriscas da Europa. Quase todo bailado e cantado, realiza-se em uma barcaça armada especialmente para este fim. Personagens: almirante, capitão, Capitão de mar e guerra, mestre piloto, mestre patrão, padre-capelão ,doutor cirurgião, oficiais inferiores, marujos e dois gajeiros. Trajes: à maruja. Instrumentos: pandeiro.

COCO ALAGOANO

Dança de origem africana, cantada e acompanhada pelas batidas dos pés ou tropel. Também denominada pagode ou samba. Surge na época junina ou em outras ocasiões para se festejar acontecimentos importantes da comunidade. Personagens: mestre e dançadores. Traje: roupa do dia a dia. Variações do estilo: coco solto, quadra, embolado, coco de entrega, coco de dez pés, praieiro, bambelô, zambê, coco de roda e samba de coco.

FANDANGO

Auto dramático de temática náutica, como a chegança. Entoam cantigas náuticas de diversas épocas e origens, algumas sem dúvida portuguesas que falam de suas grandes navegações. Personagens: almirante, capitão, capitão de mar e guerra, mestre piloto, mestre patrão, oficiais, marujos e gajeiro. Trajes: oficiais com quepe de pala, paletó azul marinho com camisa e gravata preta, ornado de platinas e alamares, calças brancas, espadas e espadins; marujos de gorro e blusa maruja da mesma cor que a dos oficiais. Instrumentos: rabeca e viola.

GUERREIRO

Auto genuinamente alagoano, misto de reisados alagoanos e do antigo e desaparecido auto dos Caboclinhas da chegança e dos pastoris, surgido entre os anos de 1927 e 1929. Trajes: multicoloridos, usando-se fitas, espelhos, diademas, mantos e contas aljôfares. Personagens: rei, rainha, índio Peri e seus vassalos, lira. Instrumentos: sanfona, tambor e pandeiro.

PASTORIL

É um fragmento dos presépios, constituído por jornadas soltas, executado-se a de boa noite e a da despedida. Personagens: mestra, contramestra, diana, as pastorinhas, o pastor e a borboleta. Trajes: saias, blusas, faixas, aventais, chapéu de palhinha, nas cores azul e encarnado. Levam um pandeiro feito de lata, com cabo e sem tampa, ornado de fita com a cor do cordão a que pertence. Acompanhamento: conjunto de percussão e sopro.

REISADO

Auto popular profano religioso, formado por vários grupos de músicos, cantores e dançadores apresentando vários episódios. Sincretizou-se, no Estado, com o auto dos congos ou rei dos congos.

Personagens: rei, rainha, embaixador, mestre ou secretário de sal, contramestre, mateus e palhaço. Trajes: saiote de cetim colorido, chapéu de aba larga guarnecido de espelhos redondos, flores artificiais e fitas variadas. Instrumentos: sanfona, tambor e pandeiro.

VAQUEJADA

Pega do Boi, Corrida de Mourão ou como é mais conhecida Vaquejada é um esporte caro pois necessita de local apropriado para sua prática diferente dos tempos em que Lampião e seus "Cabras" o praticavam nas caatingas. Geralmente corre-se vaquejada por dupla, uma vez que um dos vaqueiros faz o papel de "esteira", para que o boi não saia pelo lado oposto ao do "puxador", que segurando a cauda do animal, faz força para derrubá-lo de patas para cima. Na vaquejada cada lance envolve risco e exige coragem é realmente como dizem os que dela participam: "um esporte de cabra macho". Traje: Comum geralmente com as proteções usadas pelos vaqueiros.

 

O GOGÓ-DA-EMA

Sobre o Gogó-da-Ema, o maior símbolo de Maceió, o historiador Luis Veras Filho, num excelente trabalho publicado pela Fundação Teatro Deodoro, da série Maceió - História e Costumes, assim se manifesta:

"Uma onda de tristeza, lamentos e protestos invadiu Maceió na manhã do dia 28 de julho de 1.955, ao ser divulgado, amplamente, o tombamento - no sentido drástico do vocábulo - do "Gogó-da-Ema".

estava, deitado, moribundo, na areia alva da Ponta Verde, a palmácea poética da cidade. Há muito que se esperava o espetáculo. Os jornais e a população clamavam por uma proteção mais segura ao coqueiro.

Desprezado pelas autoridades, apesar de gabado e sempre apresentado por todos os maceioenses aos visitantes da cidade, o "Gogó-da-Ema" , às 16;30 hs. do dia 27 de julho de 1.955, teve sua proteção fortemente invadida pelas águas impetuosas do Atlântico; e, finalmente, sem mais se conter em suas raízes, caiu, naquela encantadora hora de início de crepúsculo, como são os fins-de-tarde da Pajuçara e da Ponta Verde.

O "Gogó-da-Ema" desafiava a lei da gravidade, o que fazia com que houvesse a necessidade do máximo de fixação ao solo para que permanecesse de pé. Mas, o que ele mereceu das autoridades foi apenas um punhado de barro em sua base e um cais-de-proteção de troncos e coqueiros, estacas de madeira e pedaços de arrecifes extraídos do local, juntados com cimento, de pouca resistência, que a preamar, sempre debelando, aos poucos foi tornando sua queda iminente.

Nunca se pôde compreender o esquecimento a que o governo relegou o coqueiro-aleijão, cujo defeito o tornou motivo histórico para nossa capital. Estranhável o descuido do poder público, depois que a fama da inditosa palmeira atravessou os limites do estado para torná-la conhecida no país e no estrangeiro, através de postais, gravuras, fotografias, panfletos e "posters" , nos interessantes aspectos colhidos pela habilidade dos fotógrafos amadores e profissionais, nas manhãs tranqüilas e cheias de luz, como nas noites poéticas, com a lua a surgir dentre as nuvens, através da sua fronde majestosa a dominar a paisagem.

O "Gogó-da-Ema" vivia por todas as partes: na vitrine dos estúdios; nos álbuns de seus mostruários; na bela coleção de fotografias colorizadas que enriqueciam e encantavam o atelier de Arnaldo Goulart; nas telas de José Paulino; nas luxuosas latas dos biscoitos "Brandim" . Por toda a parte estava o "Gogó-da-Ema".

O local onde ele dominava tornara-se o ponto-de-encontro escolhido dos namorados e das conquistas arriscadas. Nas tardes amenas, era o passeio preferido pelo encanto maravilhoso da paisagem marítima e pelos que se deliciavam com a água saborosa do coco verde.

Nas noites de luar, o "Gogó-da-Ema" foi testemunha discreta e muda dos encontros felizes, das confissões apaixonadas que ouvia, dos devaneios, dos íntimos aconchegos amorosos a que assistia impassível. Ele atraía, com um estranho magnetismo, os namorados, como se fosse tal como Vênus da mitologia, inspirando mais o amor, lançando nos pensamentos palavras carinhosas que transmitimos àqueles que amamos...

Lembro-me, quando menino, vi o "Gogó-da-Ema" pela primeira vez: o dia era claro e a luminosidade cobria a terra; e eu, boquiaberto, admirava aquela silhueta que se lançava ao mar e ao firmamento. Fiquei deslumbrado por algum tempo, olhando aquela paisagem maravilhosa que mais parecia imaginária...

Veio o entardecer, uma brisa suave agitava os meus cabelos salgados, o vento tornava-me sonolento, o manto escuro começava a substituir a luminosidade do sol que se tornava rubro cada vez mais, tornando a paisagem tão bonita que nenhum pintor deste universo, por gênio que fosse, conseguiria transpor para sua tela.

Era, o "Gogó-da-Ema", o coqueiro fenomenal que, acidentalmente, cresceu - a Natureza, para ser retilínea, às vezes entorta - daquela forma : na parte inferior da curva pronunciada do "Gogó", havia cicatrizes de traumatismos causados por pequenos insetos que, com certeza, afirmaram agrônomos da época, deram-lhe aquela forma. Era uma espécie de monumento da Natureza, o qual, naquela solidão, vivia confortado pela lembrança de todos os que o visitavam para ver se, de fato, aquele vegetal tinha mesmo, no tronco, a curva parecida com a do pescoço dos pernaltas.

Ele ficava na ponta do semi-cabo que conhecemos como Ponta-Verde, como se fosse um farol, mostrando as adjacências dos pontos-de-partida dos destemidos jangadeiros. E, naquele recanto, ele era como se fosse uma pessoa contando-nos uma história que só terminava quando se saía de lá. O coqueiro amigo era como recanto para todas as idades, porque era o recanto para todas as mocidades.

Quando foi plantado e quem o plantou, isso ninguém descobriu. Quem o batizou, ninguém o sabe; mas, segundo Roberto Stukert, um repórter-fotográfico que foi quem mais o retratou, quem oficializou o nome foi o então Deputado e escritor Mendonça Júnior, que havia, também, sido Diretor do Departamento Estadual de Cultura.

Segundo se afirmava, o coqueiro-símbolo de Maceió existia desde os meados dos anos 10, no sítio outrora pertencente a Francisco Venâncio Barbosa, mais conhecido como Chico Zu. No início era pouquíssimo conhecido, e quem o fosse ver arriscava-se a ser mordido por cães que guardavam o local.

Além do descaso das autoridades, outro motivo que provocou sua morte, segundo consta, se deu a partir de 1.930, quando, próximo ao local, uma empresa norte-americana perfurou vários poços em busca de petróleo; os alicerces de uma das torres ainda estão lá até hoje. Com isso, o mar começou a avançar, derrubando vários coqueiros, fazendo com que se pudesse divisar o "Gogó" ao longe, quer da praia de Pajuçara, quer do mar.

Mas o mar continuava a avançar, pondo em risco a famosa palmeira. Veio então a construção do Porto de Jaraguá, que ocasionou mais acentuadamente a invasão marítima, quando a Prefeitura construiu o bisonho cais-de-proteção, que não resistiu à fúria do mar.

José Dias de Oliveira, empregado na propriedade onde ficava o "Gogó", que já pertencia ao sr. Álvaro Otacílio, foi quem viu o coqueiro cair:

"... Ele não caiu de uma vez. Foi aos pouquinhos. Foi caindo e, já em baixo, despencou com mais violência, com um barulho seco."

A queda do referido vegetal chegou a merecer uma ampla reportagem em " O Cruzeiro ", a melhor revista brasileira da época, ilustrada com fotografias dele, imponente, majestoso e, depois, sucumbido.

Tentaram ressuscitar o coqueiro, com a participação de centenas de pessoas, autoridades e agrônomos, além do Corpo de Bombeiros, o qual, com a ajuda de um guindaste, ergueu a árvore. Essa iniciativa foi encabeçada pelo jornalista Carivaldo Brandão. Mas, em 1.956, foi, o "Gogó-da-Ema" , dado como morto definitivamente.

Sobre ele, é importante transcrever, aqui, palavras do ilustre folclorista Théo Brandão :

" É verdade que o "Gogó-da-Ema" é um aleijão. Mas há harmonia em suas linhas. Quanto ao mais, o povo já o elegeu como símbolo da cidade. Significa uma preciosidade da terra. Como folclorista, temos obrigação a zelar pelos que, mesmo sem serem feitos pelo povo, são entronizados como símbolos pelas camadas populares. Aliás, no material da Comissão de Folclore de Alagoas, o "Gogó-da-Ema" aparece como símbolo".

O saudoso coqueiro, como já foi dito, sempre foi muito querido pelos namorados, a quem acolhia nas manhãs e tardes ensolaradas, ou nas noites de luar. Talvez, por isso, tantas visitas teve depois de moribundo. A solidariedade foi tamanha, que parecia que todos eram parentes do coqueiro.

E, mesmo sendo o "Gogó-da-Ema" o recanto predileto dos namorados, que lá se encontravam cheios de amor, por incoerência morreu por falta desse sentimento."

 Publicada no Boletim Alagoano de Folclore No 11, de 1.987, a lenda do Gogó-da-Ema é relatada da seguinte maneira, por Maria Aída Wucherer Braga:

"Narra uma velha lenda: era uma vez uma índia morena, virgem de corpo e de coração.

Habitava a taba dos guerreiros caetés, tecia redes e se enfeitava de penas. Mirava o rosto nas águas claras da lagoa e corria pela mata, ouvindo o grito da araponga e respondendo ao canto da cauã.

Um dia ouviu-se um brado de guerra e os guerreiros partiram manejando os tacapes.

Os arcos retezados expediam flechas e eram tantas que se confundiam no ar.

Três sois lutaram sem descanso e sem cansaço. Ao alvorecer do quarto dia voltaram triunfantes.

Entre os troféus, traziam preso um inimigo. Começaram os festejos. O indio era forte e era belo. Não queria ser sacrificado. Pediu para lutar e venceu três embates.

Não se mata um herói entre os índios. Só os civilizados têm medo da coragem e do heroísmo dos outros.

A virgem caeté apaixonou-se pelo índio prisioneiros e fugiram na calada da noite.

Andavam sol a sol. À noite deitavam-se na terra e suas bocas sedentas de água e sedentas de amor se encontravam na escuridão. Recomeçavam a caminhada com a aurora.

A índia definhava. Seus passos já não eram ágeis, seus membros pesavam, seus olhos ofuscados pela claridade dos dias de sol procuravam a terra e a cabeça pendia-lhe no peito.

E a marcha prosseguia em busca de outras terras.

Um dia viram água, muita água. Era a imensidão do mar.

Exausta, ela se deitou na beira da praia deserta. Suas forças chegavam ao fim.

Desesperado, ele pediu a Tupã que o transformasse em uma árvore cujo fruto tivesse água doce para matar a sede à sua amada, polpa para mitigar-lhe a fome, óleo para untar seus pés cansados e palmas longas para abrigar na sombra seu corpo franzino.

Tupã atendeu. Transformou-o em coqueiro, o primeiro coqueiro que houve sobre a terra.

Na ânsia de crescer, ele elevou o tronco muito acima das areias brancas e ela não alcançou seus frutos pendentes.

Então, num esforço gigantesco, ele se curvou para a praia, abaixando o tronco poderoso.

A índia já não resistia. Com as mãos estendidas para colher os frutos de água doce e polpa macia, sua alma voara em direção às nuvens.

Novamente, num esfoço supremo, ele movimentou o tronco para o alto e ergueu a copa verde carregada de frutos para o céu.

Até morrer ele ficou ali numa praia de Alagoas, embalando nas palmas adejantes, a alma fugitiva de sua amada".